quarta-feira, março 18, 2015

Tá morto?

- Morreu?

Ouviu a pergunta de muito longe.  Seu corpo, estirado sobre as pedras portuguesas e rodeado por curiosos, estava inerte. Dalí podia ver um céu azul radiante com uma nuvem imensa passando de soslaio. Voltou no tempo, lá atrás, quando era apenas um menino. Exausto, após rodopiar na areia, admirava no céu as nuvens formando anjinhos, cavalos-marinhos, castelos, crianças. O tempo passava lento e quase sempre era despertado por uma voz longínqua, como agora.

- Coitado! Tão moço!

Há poucos minutos saíra de uma agência bancária com o dinheiro que sacara do FGTS e atravessava o Largo da Carioca quando um estranho se aproximou e lhe ordenou baixinho:

- Passa a grana!

Continuou a caminhar ainda sem entender o que estava acontecendo... como aquele sujeito sabia que ele estava com dinheiro? Apressou o passo e entrou pelo portão do jardim que dá acesso ao Convento de Santo Antônio na esperança de se deparar com algum policial e se safar daquela situação. Mas, ao apressar o passo, a fuga foi percebida pelo meliante que lhe deu um tiro e fugiu em seguida. Ele cambaleou, procurando algo em que se apoiar e tombou no meio do passeio com as costas no chão.

Do seu leito de pedra podia ver o céu azul e a nuvem branca através de uma abóbada de curiosos. Percebeu que alguma coisa havia acontecido, mas o céu azul e a nuvem branca lhe davam uma sensação de paz infinita. Sentiu alguém lhe tomar o pulso, apertar-lhe a carótida, mas tudo era tão distante.

Tantas vezes quis ser astronauta, ir além das nuvens, ter a mesma visão de Gagarin ou, quem sabe, ter um tapete voador para viajar em segundos sobre as areias escaldantes do deserto e depois avançar sobre as espumas brancas do mar. Não havia mais preocupações. Contas, compromissos, responsabilidades... nada mais parecia ter importância diante da beleza daquele céu azul.

- Tá morto?

Não sabia responder. Estava vivo antes ou estava vivo agora... difícil dizer. Sempre ouvira que na hora da morte se sentia frio, mas estava quente... talvez já estivesse morto. Também se lembrava de relatos de pós-morte em que o “morto” se via estirado no chão e contemplava o alvoroço em torno de seu corpo inerte, mas tudo que importava naquele momento era aquele céu azul e aquela nuvem branca cobrindo uma parte do Largo da Carioca.

Foi despertado por um forte impacto no peito que o fez abrir a boca e buscar o ar desesperadamente. Como se de seus ouvidos fosse retirado um tampão, ele agora ouvia a algazarra intensa das pessoas aplaudindo em sua volta.

- Ele está vivo!

As pessoas se abraçavam e uma moça, segurando sua mão, lhe pedia para não se mexer. Foi erguido do chão, colocado numa maca e levado para algum lugar. Para onde, não sabia. De tudo que lhe acontecera só tinha uma certeza: deveria olhar mais vezes para o céu.

terça-feira, dezembro 23, 2014

Presente de Natal

Se você quer me dar um presente, não me pergunte o que quero ganhar. Posso encarar esse questionamento como uma ofensa, pois para mim, presentear é mais do que o simples ato de comprar alguma coisa para alguém.
 
O ato de presentear não pode ser encarado como uma obrigação, uma tarefa aborrecida que nos tomará minutos preciosos em nossa vida agitadíssima e, para nos livrarmos dela, entramos na primeira loja que encontramos e pegamos qualquer coisa.
Não, presentear é mais do que isso. Dar um presente não pode ser um gesto banal. Presentear é atender a um desejo que nasce lá dentro de nossa alma e toma conta de nossos corações. Queremos agradar a alguém. Queremos que essa pessoa tenha um momento divino e que a descoberta do objeto que o papel colorido protege seja de total felicidade. Para que isso aconteça, é necessário surpreender.
 
Escolher um presente demonstra um amor imenso pelo próximo. Significa perguntar-se o que poderá fazer aquela pessoa feliz. Quais são os seus gostos, as suas necessidades, os seus desejos. É ter preocupação em fazer daquele breve momento em que se rasga um papel colorido um instante mágico. Não importa valor, marca, objeto, papel, fita. Quando os olhos de quem é presenteado se iluminam aquecem o coração de quem presenteia e temos, por um breve instante, a sensação de que o mundo ficou mais bonito.
Presenteie com o coração.

Feliz Natal!

quarta-feira, outubro 15, 2014

Perdeu, canalha!!!

Muita gente já disse isso, mas para que possamos manter nossa própria sanidade mental, é preciso repetir como um mantra: o Brasil não nasceu com o governo do PT.

A iminência da perda do poder tem provocado em algumas pessoas, ditas inteligentes, algumas que até contavam com minha admiração, a negação da verdade. Segundo a opinião dessas pessoas, manifestada em artigos e entrevistas, o PT não é menos corrupto do que os demais partidos. Logo, ladrão por ladrão, vote em quem está mais à mão.

Ainda estão frescas em minha memória as estórias do politico paulista Adhemar de Barros a quem, segundo alguns jornais, se atribuía o slogan “rouba, mas faz”. Ver um partido que durante a minha juventude foi o baluarte contra a corrupção e se arvorava de ser o único imaculado na cena politica do país, se igualar no que existe de pior entre os partidos políticos “não tem preço”.

Ainda lembro do golpe baixo desferido por Collor na última semana das eleições de 1989 quando apresentou o depoimento da ex-namorada de Lula. Naquela ocasião pensamos que um politico nunca mais desceria tão baixo. Ledo engano. Ainda não tínhamos a Dilma como governante.

O PT passou anos demonizando as principais figuras da república – Sarney, Collor, Renan, Maluf e outros menos votados – para hoje vermos essas mesmas pessoas em lugares de destaque nos palanques petistas espalhados pelo país. Mudaram eles ou mudamos nós?

É estarrecedor vermos pessoas cantando loas aos regimes cubano e venezuelano, aonde falta até papel higiênico, bebendo chope geladíssimo nos bares descolados da zona sul do Rio de Janeiro. São revolucionários caducos que ainda nutrem a esperança de participarem de uma guerrilha em Sierra Maestra, mas sem abdicarem de uma viagenzinha até Orlando ou Paris.

O PT foi criado para fazer o enfrentamento. Seus quadros, em grande parte, foram moldados nas ditaduras socialistas. Eles não entendem o que é democracia. Querem calar o contraditório. Para eles só existe um lado: o deles.

Do lado deles é normal ser corrupto. Seus líderes encarcerados se arvoram de heróis do povo brasileiro. “Que é isso, companheiro?”. Meu herói é o Homem Aranha e, só para lembrar, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

Eu que acordo cedo para o batente e compartilho diariamente com tantos outros brasileiros a satisfação de ter um trabalho honesto, de se orgulhar de transmitir aos filhos a obrigatoriedade de ser uma pessoa decente e de andar de cabeça erguida, creio ser chegada a hora de dizer basta. Chega de corrupção, inflação alta, mentiras, educação de baixa qualidade, esmolas que escravizam os pobres e poucas oportunidades de crescimento. Na madruga do dia 27 quero ter o prazer de abrir minha janela e quebrar o silencio da madrugada gritando em plenos pulmões: Perdeu canalha!


segunda-feira, setembro 08, 2014

Eu li na Internet...

“Eu li na...”. Quando a pessoa começa a me dizer uma suposta verdade baseada no que leu ou viu na Internet, eu a espero terminar para dizer: “Não acredite em tudo que está na rede”.

A Internet virou um quintal sem dono. Todo mundo fala tudo sobre todos sem a menor preocupação com o impacto que suas tecladas irão provocar na vida dos outros. Não há o menor cuidado com as ações e a responsabilidade pela correção das inverdades fica com quem está sendo ultrajado.

Há uma corrida desenfreada para mutilar o outro. São apps, blogs, sites de fofocas, comentários, posts, sites políticos e até a wikipedia. Há listas de supostas prostitutas, homossexuais, corruptos, meninas, meninos... enfim, há de tudo.

Outra maneira muita curiosa de mentir na internet é assumir a identidade de outra pessoa. Com frequência nos deparamos em nossa caixa de email com um texto, enviado por amigo ou desconhecido, de um autor consagrado. Escritores, atores, compositores, jornalistas, físicos, químicos, dançarinos e outros mais estão nessa categoria. Clona-se a pessoa, pensando-se que está se clonando um personagem. Há, inclusive, quem dê um passo à frente na tentativa de se fazer o outro: são fan pages, blogs e sites atualizados constantemente com textos que as pessoas clonadas desconhecem e, alguns, jamais escreveriam.

Um amigo me disse que a fama chega realmente para uma pessoa quando ela passa a ser clonada na internet. Isso não é fama, é o inicio de um pesadelo que dará muito trabalho para esclarecer de fato quem é quem. Algumas pessoas estão recorrendo ao registro de seu nome como propriedade. Dessa forma, pode-se recorrer à justiça pleiteando violação dos direitos da marca registrada. É um bom caminho, sem dúvida. Mas me pergunto se será suficiente para inibir tal prática.
 
Tenho para mim que o problema não é a falta de leis ou dispositivos para inibir a calunia e a difamação, ou até mesmo a clonagem. O que faz da Internet um “liberou geral” é a impunidade. Nossa justiça tem que ser mais eficiente e eficaz na aplicação das penalidades, inclusive pecuniárias. Só assim, as pessoas pensarão duas vezes antes de postar um texto malicioso sobre alguém.

terça-feira, agosto 12, 2014

Que bem faz um dia de sol

Nada me fascina mais do que acordar e ver o sol refletido na parede do meu quarto, entrando furtivo, esgueirando-se pelas frestas da persiana, empurrando a penumbra para o lado, como a dizer: salta fora que agora é a minha vez!

Ver a luz do sol novamente, após uma noite boa ou mal dormida, me dá a certeza de que ainda estou no jogo. Se estou enfermo me dá vontade de sair da cama, ir para a varanda ou para uma praça e deixar que o mormaço penetre em minha pele, aquecendo cada centímetro de meu corpo carente de energia.

Quando são e o trabalho me chama, fico louco para ganhar as ruas e ver os raios refletidos nas vidraças dos prédios, jogando claridade nas calçadas ainda dormentes. O calor do sol me enche de alegria e passo a prestar mais atenção nos pequenos detalhes que a vida coloca à minha disposição.

Se o dia não é de trabalho anseio por sair e fazê-lo durar mais do que as dez horas de claridade. Há tanta coisa para ver ou fazer, tantos lugares para visitar, tanta gente para curtir que meu corpo não demanda fadiga. Se houvesse mais sol nesses dias, mais eu faria. Quando digo isso não me refiro a algo grandioso, inédito ou incrível. Falo de pequenas coisas como andar no parque, fazer uma trilhar ou me sentar tranquilamente na beira da praia e deixar a maré brincar de molhar os meus pés até o astro sumir no horizonte.

O sol me dá a certeza de que posso fazer escolhas. Comer bem, beber muita água, rir de coisas insignificantes e dar muito menos valor aos aborrecimentos do dia a dia. A vida é feita de escolhas e quando as fazemos de forma sábia, tudo que nos cerca fica mais valioso. É certo que algumas vezes, é a vida que faz as escolhas para nós. Uma doença, um acidente, uma intempérie. Mas, mesmo quando isso acontece, ela nos dá a possibilidade de escolha. Podemos aceitar tudo como uma sentença de morte ou ir à luta, vivendo cada dia na normalidade de um dia ensolarado.
Quando vejo os raios do sol escapando entre as nuvens ou reinando soberano em um céu danado de azul, tenho a certeza de que tudo que acontece conosco tem uma única e exclusiva razão: devemos estar mais atentos às coisas simples da vida. Elas podem quebrar nossa rotina e nos trazer o prazer escondido entre suas insignificâncias.

quarta-feira, agosto 06, 2014

Caos no trânsito

Olhei pela janela do apartamento e vi o transito em frente ao prédio fluir como um rio, sem qualquer impedimento. Poucos veículos esperavam o sinal verde para avançarem despreocupados, levando seus ocupantes ao trabalho, colégio, consultas médicas, universidades e a outros compromissos. Voltei meus olhos para o céu para confirmar as previsões meteorológicas. As nuvens cobriam o azul celeste deixando o céu nublado. Corri para pegar o carro e sair de casa antes da chuva. Tudo o que não queria era estar no transito quando as torneiras do céu fossem abertas.
 
Saí da garagem fazendo preces para que a chuva demorasse mais um pouco para desabar sobre a cidade, mas foi em vão. Mal embiquei o carro na calçada, os primeiros pingos caíram sobre o para-brisa. O trajeto até o trabalho seria longo, mesmo estando a poucos quilômetros de casa. Dito e feito. Como por magia, a rua instantaneamente se encheu de carros. Aquele trânsito que fluía tranquilo agora se assemelhava a um empurra-empurra. O sinal vermelho parecia se alongar além do tempo previsto. Buzinas soavam insistentes, tentando abrir espaço nos cruzamentos sem sucesso. A chuva transformara o transito em caos. 

É certo que temos que reduzir a velocidade em pistas molhadas, redobrar a atenção com os carros que dividem as faixas de trânsito conosco, mas não entendo porque tudo para ao menor sinal de chuva. Passamos a andar abaixo dos trinta quilômetros como se todos fossem tartarugas. Com o trânsito parado, logo imaginamos algum acidente, mas ao passarmos por determinado ponto a partir do qual o tráfego flui, vemos que não há nenhuma razão para o engarrafamento. Chego a conclusão que alguns de nós, motoristas, sofremos algum tipo de pane a um mero sinal de água. Travamos e contribuímos para que o trânsito fique atravancado.

Dirigir na cidade é complicado, com chuva, então, fica impossível. Dito isso, só nos resta aprender a conviver com o caos no trânsito e torcer para que aqueles que temem dirigir nessas condições, nesses dias, fiquem em casa.

sexta-feira, julho 25, 2014

Para onde vão os guarda-chuvas?

Basta o tempo ficar nublado para que a lembrança dele se faça mais forte. Estando em casa, corremos a procurar o bem-dito por todos os cantos sem, contudo, encontrá-lo. Saímos às ruas nos desviando dos pingos d’água que caem justamente em nossas cabeças. Tentamos nos proteger com as mãos, jornais, livros, enfim, com qualquer coisa que tivermos nas mãos no momento em que somos surpreendidos pela chuva.
 
Outro dia tentei lembrar-me de quantos guarda-chuvas comprei até hoje. Estimei que havia comprado pelo menos dois por ano. Supondo que desde os quatorze anos eu os compro e que estou com cinquenta e três, cheguei ao impressionante número de setenta e oito. Fiquei boquiaberto. Eu, feliz proprietário de setenta e oito guarda-chuvas, sempre que chove estou sem nenhum e termino por adquirir mais um.

Já tive guarda-chuvas de todos os tipos e tamanhos. Pretos, cinzas, azuis, listrados, quadriculados, alegres e tristes. Grandes, médios, pequenos e reduzidos, uma tentativa de tê-lo sempre na mochila e nunca mais me molhar, mas que deixei em algum lugar que não lembro.

Quando converso com amigos e até mesmo estranhos, vejo que compartilho do mesmo problema e da mesma perplexidade. Todo mundo compra guarda-chuvas e os deixam em lugares desconhecidos. Parecem que eles são tragados por um buraco negro.

Muitas teorias são elaboradas para explicar o sumiço dos guarda-chuvas. Uma colega me disse que eles vêm dos anéis de Saturno e para lá retornam sempre que nos descuidamos. Outro me disse que eles são atraídos pelo Triangulo das Bermudas e lá penetram em um portal que os levam para outra dimensão. Eu acredito que existe um exercito de anõezinhos que os roubam e revendem para ambulantes que nos vendem para que sejam novamente roubados e revendidos a ambulantes que nos vendem e...

Lançamento do meu livro: O Olhar Oblíquo do Medo na Livraria da Travessa em Botafogo


quinta-feira, julho 24, 2014

Conversando a gente se entende

Não sei ao certo em que momento de minha vida fui informado de que a vida é finita. Nós nascemos e, com alguma sorte, crescemos, casamos, temos filhos, vêm os netos, a aposentadoria e a morte.

O fato de termos essa certeza não nos castra o desejo de viver. A maioria dos seres humanos passará o resto de suas vidas tentando ignorar o irremediável. A morte virá como virão os dias após as noites por séculos e séculos.
Essa corrida contra o tempo que empreendemos é, ao final de tudo, uma fuga impossível de um encontro que nos levará daqui para algum lugar além de nossa compreensão, a despeito das religiões nos levarem a crer que existe um lugar melhor do que esse aqui para os que se comportarem bem.
Alguns de nós, em algum ponto dessa linha da vida, nos deparamos com a expectativa de abreviação de nosso tempo aqui na terra. Pode ser uma enfermidade, um câncer, ou uma fatalidade, um assalto. O fato é que nesse momento somos envolvidos por um sentimento de medo. Sofremos pela perda que nossa ausência irá provocar nas vidas das pessoas a quem amamos.
Encarar esse momento é um desafio sem comparação. Quando somos nós os escolhidos para embarcar rumo ao desconhecido, fatalmente caímos em depressão, muitas das vezes contribuindo de forma decisiva para que o mau presságio se concretize. Quando ocorre com um parente ou um amigo, também ficamos reféns da situação, sem saber o que fazer ou como consolar o desafortunado.
Ano passado me descobri com uma necrose no fêmur. Parodiando a música, posso dizer que “meu mundo caiu”. Foi um soco na boca do estômago. Pensei que tinha chegado a minha hora. Com certeza, pensei, faltou alguém para fechar a cota do mês, São Pedro abriu o livro, fechou os olhos e seu dedo indicador parou em cima do meu nome. Fui o escolhido.
Passado o impacto inicial e após consultar outros especialistas, vi que meu caso tinha cura, mas eu iria passar um ano em inatividade. Foram oito meses entre a cama e a cadeira de rodas. A cada revisão da cirurgia uma grande expectativa de ter alta e voltar a andar, mas as radiografias indicavam que eu teria que ficar mais algum tempo sem colocar os pés no chão.
Sem perceber, fui entrando em depressão. Fui deixando de lado as coisas que estava fazendo, passei a bater ponto em frente a televisão e a comer compulsivamente. Vieram as dores de cabeça, pressão alta, dores no peito e um medo intenso do dia seguinte.
No momento mais angustiante desse processo, percebi que tinha que procurar ajuda profissional e o amparo dos amigos. De fato, fui a muitos médicos e eliminei passo a passo cada uma das minhas suspeitas. A dentista disse que não havia nada de errado nos meus dentes e que as dores de cabeça poderiam ser da coluna. A oftalmologista informou que meu grau continuava o mesmo. O cardiologista diagnosticou que eu não tinha pressão alta, portanto deveria parar de tomar remédio. O neurologista disse que não havia nada de errado com meu cérebro e que eu deveria ir a um psiquiatra. Fui, e também passei a fazer análise.
Em pouco tempo fui voltando ao normal. Tomei antidepressivos e calmantes, mas acredito que a ajuda maior que tive para sair do atoleiro em que me encontrava veio das conversas que tive com meus médicos, a analista e com os amigos.
Conversar é bom. Falar sobre tudo que te angustia e ouvir o outro é bem legal. Outra coisa que me fez muito bem foi criar novos objetivos, fazer novos planos, voltar a trabalhar. Sobretudo, o que fez a diferença em mim foi a decisão de resolver todas as pendências que havia acumulado através dos anos e que protelava as decisões em busca de um momento melhor. Não há. Quando temos um problema, é melhor resolvê-lo de uma vez por todas, evitando que fique acumulando poeira no fundo de nossa cabeça.
Então, se você está numa encruzilhada, se tens a expectativa de ir falar com Pedrão antes da hora, se é que alguém sabe qual é a hora de partir, ou se somente está sem vontade de viver, procure alguém para conversar. Tem o ditado que diz: “conversando a gente se entende”. É por aí. Converse, limpe o porão da sua cabeça. Coloque nela coisas novas: um amor, um filho, uma música, um livro, um trabalho. Qualquer coisa que possa vir a te dar prazer de voltar a viver. Se você fizer isso, não garanto que vás sobreviver, mas te asseguro que isso te fará muito bem.

domingo, julho 20, 2014

Fazer amigos é construir pontes para o infinito


Hoje me ocorreu de tentar identificar o momento em que um simples conhecido passa à condição de amigo. Tem pessoas que aparecem na nossa vida e vão ficando. De repente a gente passa a sentir vontade de fazer algumas coisas juntos: cinema, futebol, música, praia, novela, chope, caminhada, desabafo.
E vem o tempo e as distâncias, mesmo as mais insignificantes, ficam enormes, longes até mesmo de um simples telefonema. Nesses momentos pensamos que aquela amizade, que fora tão forte, não existe mais. Deixamos a mágoa tomar lugar da saudade. Se o amigo não me procura, também não o procuro mais. Deixamos morrer a cumplicidade, o querer bem, a certeza gostosa de se saber querido e a consciência do quanto aquela pessoa nos faz falta, mesmo quando queremos apenas o siléncio.
A falta que o outro nos faz se reflete na falta que fazemos a nós mesmos. Quando não nos permitimos cultivar uma amizade, envelhecemos sem guardar lembranças. De nada nos valerá os bons momentos se não pudermos compartilha-los com alguém somente com o interesse de torná-los eternos.
Penso que fazer amigos é construir pontes para o infinito. Nunca saberemos aonde uma boa amizade nos levará.

sexta-feira, julho 18, 2014

João Ubaldo Ribeiro, um brasileiro de Itaparica

Aos domingos, sempre que eu comprava um exemplar de “O Globo”, meu primeiro olhar corria para o caderno aonde encontraria o artigo de João Ubaldo Ribeiro. Me deliciava com as estórias que ele narrava contando suas estadias na Ilha de Itaparica e seus personagens memoráveis, reais ou imaginários.
 
As suas aventuras pela orla carioca, um café, um diálogo com o jornaleiro, um chope com os amigos, tudo era contado com extrema perícia pela riquíssima prova do grande escritor. Vencedor de grandes prêmios que honraram suas qualidades como contador de estória, talvez não soubesse que conquistara o maior de todos: o coração dos brasileiros que insistem em ter acesso a uma boa literatura.
Critico contundente de pessoas públicas que desempenharam suas funções não tão republicanamente como deveria ser, me parecia um inveterado esperançoso de dias melhores. Seus textos são obras-primas que poucos terão a oportunidade de igualar, nunca ultrapassar. Seus leitores sentirão a enorme ausência da sua voz rouca a denunciar as coisas que o incomodavam, mas terão como consolo os seus textos que, muitas vezes, soaram como chibatadas no lombo dos oportunistas e mentirosos. Talvez os corruptos pensem que agora terão descanso, uma vez que sua voz se calou, mas enganam-se. As palavras escritas por João Ubaldo ficaram eternizadas nos olhos dos leitores que as repetirão à exaustão por todo o sempre. Viva o povo brasileiro! Viva João Ubaldo Ribeiro, um brasileiro de Itaparica.

terça-feira, julho 15, 2014

Não choro por ti Argentina

Acabou. Depois de sessenta e quatro partidas chegou ao fim a Copa do Mundo e aqui no Rio de Janeiro, também acabou a farra dos feriados. Se segura parceiro que a transa é sinistra e o negócio é cabuloso. Feriado agora só em Novembro. Vai ser duro de aguentar. Eu já estava acostumado com essa semana de quatro dias e agora terei que me readaptar ao trabalho. Fazer o quê, meu camarada!

A Copa terminou como deveria terminar. O melhor time foi campeão. Graças a Deus! Escapamos de passar quatro anos sendo sacaneados pelos nossos hermanos argentinos. Passaram a Copa toda nos zoando, agora voltam para casa com o rabo entre as pernas. Ah, não choro por ti Argentina, afinal, Pelé tem mais Copas do que você.

Bem, voltamos à nossa vidinha sem graça. Os escândalos políticos voltam a ter destaque nos noticiários, Perceberemos que nossos representantes emendaram a Copa com as eleições e que só voltarão a trabalhar em Novembro, mas aí já vem o Natal e o Ano Novo, vai ter recesso e com isso eles emendarão a farra até o fim do carnaval de 2015.
Teremos eleições e a oportunidade de escolher entre o mais do mesmo ou a renovação, mas iremos nos deparar com candidatos com roupa nova e velhas ideias. No âmbito Estadual, velhos candidatos, velhas ideias e desejos de transformarem o Estado em sustento eterno de suas famílias. Há a possibilidade de vermos novamente a República do Chuvisco em todo seu esplendor ou então o estabelecimento da oligarquia nordestina vermelha ou o proselitismo cristão. Isso sem esquecer que poderemos continuar sendo governados por um vulgo. Sabe de uma coisa? Quero isso não. Tô de boa.

quarta-feira, julho 09, 2014

A derrota das derrotas

Foi embora o sonho do Hexa. Ficaram os elefantes brancos, as filas nos hospitais, os aeroportos inacabados, as pontes que vão do nada para lugar nenhum, as obras sem licitação. O sonho brasileiro desabou no Mineirão como desabou o viaduto construído às pressas e que vitimou duas pessoas e feriu vinte e três. Como disse nossa comandante em mensagem à seleção: é tóis!

Era para ser a Copa das Copas. Esqueceram de combinar com os alemães. Ouvi de muitas pessoas que essa Copa estava comprada e que seriamos campeões, mesmo com um time fraco e dependente de um único craque. Parece que alguém se esqueceu de pagar uma das parcelas. Eu fiquei esperando que a transmissão do jogo fosse interrompida a qualquer momento para que fosse mostrada a imagem de carros fortes chegando ao Mineirão, abarrotados do dinheiro que nos garantiria o Hexa. Graças a Deus isso não aconteceu. A vergonha seria maior.
 
É muito fácil, agora, apontar erros nas escalações e nos esquemas táticos. Assim como crucificar alguns jogadores, a despeito de suas visíveis entregas dentro de campo. A vitória mascara nossas deficiências e permite nos enganar. A derrota escancara nossas limitações e erros, e nos dá a oportunidade de fazer diferente da próxima vez. Sempre aprendemos mais com os erros do que com os acertos.
A maioria dos jogadores dessa seleção joga no exterior. Isso demonstra que a estrutura do nosso futebol está carcomida. No último campeonato carioca vimos jogo do Flamengo, uma das maiores torcidas do país, com exatos trezentos e setenta e cinco pagantes. O torcedor se nega a pagar caro por jogos com atletas desconhecidos, horários inconsequentes, sem segurança dentro e fora dos estádios e outros itens que desafiam o Estatuto do Torcedor.
 
Entramos, assim, num circulo vicioso em que os clubes não têm renda porque não tem bons jogadores e não conseguem contratar e manter bons jogadores porque não têm renda. Não há um planejamento estratégico para um dos maiores negócios desse país. Nosso futebol, apesar de transacionar cifras milionárias, é amador.
Temos que utilizar essa derrota para a Alemanha para cobrar de nossos dirigentes a profissionalização de nosso futebol. Dirigente que, comprovadamente, fizer uma gestão fraudulenta, dilapidando o patrimônio do clube, tem que ir para a cadeia.
 
Sei que falar de punição para políticos e dirigentes de clubes de futebol no Brasil é uma autêntica piada, quando vemos pessoas presas por corrupção sendo tratadas como verdadeiros heróis por parte da população. Estranho ver o número exorbitante de casos em que pessoas são presas por venda ilegal de ingressos. Muitos dirão que isso sempre existiu nos países em que a Copa do Mundo foi realizada, porém as autoridades desses países não conseguiram prender ninguém. Aqui no Brasil, temos uma policia altamente treinada, disposta a colocar na cadeia todos os malfeitores do mundo, dando uma autentica lição ao mundo do que é ser eficiente e eficaz no trato com o crime, seja ele organizado ou não.
Então me vem à mente a seguinte questão: será que nossa polícia é realmente maravilhosa ou os criminosos, amadores e profissionais, entenderam que aqui ninguém vai preso por delitos como venda ilegal de ingressos ou corrupção e que, portanto, poderiam lucrar como nunca vindo para nosso país? Não é para cá que fogem todos os criminosos nos filmes americanos?
 
Li em jornais e revistas que alguns gabinetes de deputados receberam a oferta de venda de ingressos por parte de um advogado de São Paulo. Não tive notícia que o Presidente da Câmara de Deputados ou mesmo um deputado qualquer que tenha recebido a oferta, tenha encaminhado uma denuncia à Policia Federal. Qualquer cidadão, diante flagrante delito, pode dar ordem de prisão a quem o está cometendo e o encaminhar até uma autoridade policial. Não me consta que nenhum deputado tenha realizado esse ato.
Hoje está nos parecendo que ficou para nós o bagaço da laranja, mas podemos virar esse jogo. Basta cobrarmos de nossos governantes as mudanças que queremos ver realizadas no nosso país.
Nunca é de mais lembrar: jogadores cubanos não serão a solução para ganharmos o Hexa em 2018.

terça-feira, julho 08, 2014

Vai, Brasil! Verás que um filho teu não foge à luta!

No momento exato em que o craque dominou a bola, a joelhada fatal atingiu suas costelas e o tirou de combate. Mais do que seus companheiros, a nação sentiu as dores e as transmutou em desalento. De repente, aquela certeza fincada no fundo da alma foi arrancada e deu lugar a insegurança. Sem o craque, não sabemos o que será de nós.

O povo brasileiro vive em busca de um Messias. Buscamos a salvação e solução de nossos problemas nas mãos e nos pés de uma pessoa. Foi assim com o cavaleiro colorido e com o sapo barbudo. Está sendo assim com o craque. Com os dois primeiros, vimos o país mergulhar na corrupção e no lamaçal. Há quem diga que não se faz política sem sujar as mãos no lodo mais fétido. Com o craque, vimos ruir nosso sonho do hexa em meio a um mar de lágrimas, antevendo a frustração da derrota diante dos alemães.
De repente, aquele povo alegre e confiante saiu de cena e entrou um povo pessimista que faz do culto à derrota seu comer do dia a dia. Estamos desorientados, buscando uma bússola que possa nos tirar desse beco escuro e lúgubre que nos leva às profundezas do Hades.
Na falta do craque, esquecemos nossos outros guerreiros. Estamos a perder a luta antes mesmo de entrar na guerra. Arriamos nossos estandartes, baixamos a cabeça e por isso mesmo, não conseguimos ver que o sol ainda brilha, iluminando o campo de batalha. Nossos adversários, acostumados a tantas lutas, não entendem a razão de tanto pessimismo.
Vai, Brasil! Verás que um filho teu não foge à luta! Ergamos as nossas cabeças e encaremos de frente a oportunidade de fazer um novo futuro. Somos fortes. Somos audazes. Nosso futebol sempre encantou o mundo e não será desta vez que sairemos da Copa com a pecha de derrotados. Seja qual for o resultado, seremos vitoriosos, porque não nos negamos a lutar pelo nosso ideal: o hexa!
Assim, seja qual for a nossa colocação no final desta Copa, estaremos de pé e orgulhosos de ter feito a melhor Copa do Mundo. Essa não é a Copa das Copas, como querem alguns. Essa é a Copa do povo brasileiro e o mundo saberá que nós, além de sermos o país do futebol, somos o país de um povo que sabe se orgulhar de suas conquistas e de sua estória. Prá frente, Brasil!

segunda-feira, julho 07, 2014

Agora é nós

Chegamos, aos tranco e barrancos, mas chegamos. Estamos na semifinal da Copa do Mundo 2014. Entretanto, nossa alegria não foi completa. Perdemos a nossa esperança de gols, pelo menos é assim que estamos entendendo este momento. Demorou, mas o Brasil chegou à conclusão que é extremamente dependente do talento de Neymar.
 
Estou achando tudo isso um tanto estranho. Parece que já temos uma desculpa para o caso de a nossa seleção não conseguir passar pela forte Alemanha, e  que irá aliviar a nossa dor e despir a seleção da obrigação imposta por nós, torcedores, de vencer Copa no Brasil a qualquer custo e nos redimir do vexame da Copa de cinquenta.
 
Caso vençamos, poderemos nos ufanar e respirar aliviado, sem, entretanto, apostar na vitória do Brasil no jogo da final. Ora, todos nós, torcedores assíduos ou não, sabíamos que esse time é dependente do brilho de Neymar, assim como a Argentina é das jogadas de Messi, Portugal de Cristiano Ronaldo e a França de Benzema. Nós poderíamos ser diferentes, mas Felipão escolheu vencer ou perder com as suas convicções. Não está errado. O problema é que o “imponderável” cruzou o caminho da nossa seleção.
Esse acidente ocorrido com Neymar tem levado algumas pessoas a extremos, como se tudo dependesse de uma partida de futebol. A atriz Débora Secco postou uma foto na rede demonstrando toda sua felicidade pelo momento de alegria pela qual está passando. Para quê! Um internauta a criticou por ela estar feliz quando ele estava triste por Neymar estar contundido e não mais participar do mundial. Menos, amigos, menos.
 
O Brasil perdeu a Copa de cinquenta e o país não acabou. Continuamos crescendo, nos desenvolvendo, avançando na política, na industrialização e na pesquisa. Novos craques surgiram e o Brasil foi campeão em 58, 62, 70, 94 e 2002. É claro que ganhar uma Copa do Mundo é tudo de bom, mas perder não é o fim do mundo.
Eu que, ainda menino, vi o país ganhar a Copa de 70, que fiquei triste com a eliminação da seleção de oitenta e dois e que vibrei com as conquistas de 94 e 2002, espero que essa seleção possa se reinventar sem a presença de Neymar e que dentro de campo surja um talento adormecido que exploda numa arrancada em direção ao gol e estufe as redes adversárias libertando da garganta de todos os brasileiros o grito aprisionado que fará de nós os únicos hexacampeões do planeta bola. Vamos lá Brasil! “Agora, é nós”.


 

quarta-feira, julho 02, 2014

A abstinência de bom futebol


Estou procurando desesperadamente algo que me alivie os sintomas da abstinência de bom futebol. Dois dias sem jogos da Copa estão me parecendo agora um eterno suplicio. Hoje me vi assistindo a reprise dos jogos de ontem, mas a minha dependência do futebol bem jogado ficou mais latente.
Isso me fez raciocinar em cima do que teremos quando a Copa acabar. Serei obrigado a ver novamente as partidas sem graça e sem público do Campeonato Brasileiro. Mais terrível ainda será quando chegar a hora do Campeonato Carioca. Acho que não vou resistir. Terei que imigrar para a Europa para sentir de novo essa mesma emoção.
Uma dúvida atroz tomou conta do meu cérebro. Será a constatação de que não estão jogando a altura de seus concorrentes ao título, o verdadeiro motivo do pranto tantas vezes derramado por nossos jogadores? Uma parte de mim diz que não, outra duvida. A verdade é que nossa seleção está praticando um futebol de sobressaltos e as consequências estão sendo fatais para alguns torcedores. Há relatos de casos de óbitos nos estádios e em frente as televisões. Pelo sim e pelo não, amanhã vou ao meu cardiologista. Com essa seleção brasileira, nunca é demais se precaver.

A menina que queria prender o sol

Beatriz é uma menina muito espevitada. Tem quatro anos, mas gostaria de ser adulta. Quando perguntada o por quê desse desejo, responde que adulto pode tudo, inclusive ver televisão até de manhã. Não adianta explicar que adulto tem insônia e que às vezes ver televisão na madrugada ajuda passar o tempo. Ela retruca que o tempo não pode passar, pois tem muita coisa para fazer, inclusive brincar.

Bia, como Beatriz é mais conhecida, gosta muito de desenhar e pintar. Não necessariamente nesta ordem, mas a qualquer hora do dia... ou da noite. Ela é um pinguinho de gente, magrinha com cabelos negros e escorridos que às vezes lhe cobrem os olhos de menina sapeca. Faltou dizer que Bia também chora por quase nada. Nada? Para ela é quase tudo.

 Semana passada Bia dormia em seu quarto, ainda de manhã, quando um raio de sol começou a brincar com seus olhos. Sonolenta ela os cobriu para fugir do sol e continuar a dormir, mas o raio de sol penetrou por uma fenda da coberta e iluminou os seus olhos. Ela então, os cobriu com as mãos, mas esqueceu-se de fechar os dedos e o raio de sol continuou iluminando seus olhos. Então, ela se virou de bruços para fugir do insistente raio de sol cobrindo-se totalmente. Quando se descobriu, percebeu que o raio de sol agora iluminava sua cama. Bia teve uma grande ideia: pegaria o raio de sol e o guardaria dentro de uma de suas inúmeras caixas de brinquedo. Quando botou a mão em cima do raio de sol viu que ele ficou por cima de sua mão. Intrigada tentou cobrir o raio de sol com a outra mão, mas ele também ficou por cima de sua outra mão.

“Caraca! Esse sol é muito esperto! Como vou prender esse solzinho?” - perguntou-se Beatriz.

Olhando em volta de seu quarto procurou alguma coisa que pudesse lhe servir para aprisionar aquele teimoso raio de sol, mas tudo que usava não conseguia prendê-lo. O que também estava deixando Beatriz irritada era o fato de que o raio de sol, com o passar do tempo, mudava de lugar e agora já estava sobre o seu tapete de borracha vermelho. Ela pensou em chamar sua mãe, mas lembrou-se de que ela sempre lhe dizia que já era uma mocinha e que não podia mais chorar à toa e, se era assim, ela com certeza também poderia prender aquele simples raiozinho de sol.

“Tenho que prender esse solzinho em algum lugar antes que mamãe venha me acordar. Se ela entrar aqui e encontrar esse sol como vou dizer que ainda é muito cedo para me levantar?” - pensou Beatriz.

Bia tentou prender o sol com um saco, com uma colcha, com uma luva, um casaco, um caderno, um prendedor de cabelo, uma revista, uma sandália e até com seu roupão, mas nada conseguia aprisionar o raio de sol.

“Beatriz!”, ela ouviu a voz de sua mãe lhe chamando.

“Estou perdida! Quando ela entrar e encontrar esse solzinho não terei como ficar na cama um pouco mais...”, pensou Beatriz.

De repente sua mãe entrou no quarto e foi então que o milagre aconteceu: uma nuvem enorme ficou em frente à janela de seu quarto, aprisionando o raio de sol.

“Ufa!”, pensou Beatriz, “Estou salva.”

“Minha filha, o que você está fazendo fora da cama? Ainda está com soninho?”

Beatriz fez que sim com a cabeça, então sua mãe falou:

“Hoje é sábado e não tem escola. Você pode dormir mais um pouquinho.”

 Beatriz ficou feliz com a notícia. Olhando para a janela onde a nuvem começava a soltar os raios de sol, disse para sua mãe:

“Está um dia lindo e eu quero me levantar cedo para brincar muuuuito!”.

terça-feira, julho 01, 2014

Não chorem por nós, jogadores

Muitos criticaram os jogadores da seleção brasileira por demonstrarem emoção e chorarem em alguns momentos que antecederam as partidas nesse mundial. Ora, até parece que eles não sabem que homem não chora. Macho que é macho prefere ter um ataque cardíaco a demonstrar suas emoções.
 
O grande Euclides da Cunha disse ser o sertanejo, acima de tudo, um forte. Pensávamos que todo homem brasileiro descendia de algum sertanejo, mas aqueles rostos molhados nos fizeram cair na real e a buscar uma razão para aquelas lágrimas abundantes. Muitos viram descontrole emocional, a antevisão da perda, a redenção de uma derrota ou a visão da vitória. Penso que foi isso tudo e mais um pouco.
A responsabilidade de representar o país do futebol pesou nos ombros dos nossos craques. Não deve ser nada fácil entrar em campo carregando os sonhos de milhões de brasileiros que estão com os olhos grudados no estádio ou diante das TVs, acompanhando milimétricamente tudo o que o escrete canarinho faz em campo. Pode ser a consagração, mas também pode ser um mergulho ao inferno.
 
Nossos meninos precisam de colo de mãe. É necessário passar para eles que o país pentacampeão exige o hexa, mas que entende quando o fardo é pesado demais. A imprensa executou magistralmente a tarefa de trazer para o presente o fantasma da Copa de cinquenta e isso, acredito, assustou os meninos. Deixou as suas pernas bambas na hora fatal.
Ah, Brasil, meu mulato inzoneiro, vou cantar teu hino à capela e fazer reverberar por todos os gramados a tua força e a mágica do teu futebol. Os meninos se farão homens e entraram no gramado carregando a responsabilidade de ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. O hexa será nosso, sem choro e sem vela.

Não leve a vida tão a sério, afinal, você não vai sair vivo dela mesmo

Diariamente somos surpreendidos pela notícia de que alguém próximo morreu ou está com uma doença muito grave. Nesse momento é comum questionarmos a nossa existência e maldizermos a vida, imputando-lhe a crueldade de não sermos eternos.
 
Não sei se na hora em que eu soube que um dia iria morrer me ocorreu de praguejar ou reclamar com o Criador. Não lembro. Parece-me que eu sempre soube que participo, como todos os seres vivos, desse inexorável processo de nascer, crescer e morrer.
Apesar de sabermos que iremos morrer um dia, cedo ou tarde, carregamos a herança dos povos antigos que pranteiam a morte como se ela fosse algo que não deveria acontecer. Muito já se falou sobre a necessidade que o homem tem de sentir-se eterno. A tradição Cristã e outras religiões prometem uma vida eterna sem a chatice das contas a serem pagas todo fim de mês.
A verdade é que levamos a vida muito a sério, exigindo dela mais do que ela pode nos dar. Nunca estamos contentes com o que conquistamos e nos esquecemos das coisas banais que nos provocam risos tímidos ao caminhar pelas ruas repletas de rostos seríssimos, cada um carregando os seus problemas e de toda humanidade.
Acho que está na hora de vermos a morte, não como o fim de tudo, mas como a conclusão de grande projeto que tem seus percalços, mas também tem muitos momentos bons. Se deixarmos de exigir muito da vida e passarmos a sentir prazer em cada segundo que ela nos dá, poderemos, na hora da partida, nos sentirmos como Paulo na sua carta a Timóteo: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”.
 
É certo que não sairemos vivos dessa vida, então para que carregarmos correntes durante nossa existência. Mágoas, rancores, medos, são como bolas de ferro atadas aos nossos calcanhares. Se insistirmos em carrega-las, a vida ficará mais do que séria, ficará pesada. Assim, na hora de nos despedirmos daqui, nossos parentes irão prantear, não a saudade gostosa ao relembrar nosso sorriso ou nossos gracejos, mas o quanto deixamos de aproveitar da vida que a vida nos deu. Pense nisso, liberte-se e sorria.

sábado, junho 28, 2014

O vilão de ontem foi o herói de hoje


Foi difícil... não, foi terrível... não, foi um sofrimento interminável. Como era previsível passamos noventa minutos dando chutões para frente na esperança vã de encontrar os pés salvadores de Neymar ou a cabeça pouco inspirada de Fred. Me pareceu que o Chile estava jogando com seis jogadores a mais que a seleção brasileira.
Aquela partida em que Ronaldo Fenômeno entrou em campo após passar mal na noite anterior, me voltou à memória ao ver David Luiz dando chutões inúteis para frente, tentando se livrar da bola que voltava para nossa área nos pés dos atacantes chilenos quase que imediatamente. Voltamos a escalar um jogador sem condições físicas num jogo decisivo. O país assistiu incrédulo um jogador que sentia fortes dores nas costas ser escalado para ser o primeiro a bater o pênalti. Ainda bem que as dores nas costas não atrapalharam e ele marcou o primeiro gol do Brasil.
Foi uma partida ruim. O Chile foi um time perigoso. Dominou o jogo e por muito pouco, pouco, muito pouco mesmo não saiu do Mineirão consagrado no último minuto da prorrogação. Estava ali o prenúncio de que a sorte estava do nosso lado.
Quis o destino que o goleiro que foi nosso vilão na Copa passada fosse hoje o nosso herói. Foi sua redenção, até mesmo para aqueles que não esquecem as suas raízes rubro-negras. Estamos nas quartas de final com o mesmo time que arrebentou na Copa das Confederações, mas que nessa competição nos parece tímido, sem confiança, cansado, perdido.
A Colômbia se mostrou uma equipe com excelente toque de bola, que joga sempre para frente e, além de tudo, possui o artilheiro da competição até o momento. Será mais um jogo para quem tem nervos de aço. Torço para que o técnico da nossa seleção tenha visto o mesmo jogo que nós, com todas as deficiências apresentadas pelos nossos jogadores e que escale alguém que possa comandar o meio de campo de nossa seleção, para que deixemos de tentar fazer a ligação direta entre a defesa e o ataque.
Nós continuaremos a torcer. Não é a melhor seleção da nossa história, não tem o toque refinado com o qual nos acostumamos a atormentar nossos adversários, ainda não nos dá a certeza de que chegaremos a decisão, mas é a nossa seleção. Por essa camisa amarela, vestiremos as nossas armaduras e cerraremos fileiras, prontos para lutar ao lado dos nossos gladiadores. Entraremos em campo com nossos corações e nossas mentes visando um só objetivo. Chegar às semifinais da Copa do Mundo FIFA 2014. Deus queira que a sorte continue com a nossa seleção.