terça-feira, agosto 12, 2014

Que bem faz um dia de sol

Nada me fascina mais do que acordar e ver o sol refletido na parede do meu quarto, entrando furtivo, esgueirando-se pelas frestas da persiana, empurrando a penumbra para o lado, como a dizer: salta fora que agora é a minha vez!

Ver a luz do sol novamente, após uma noite boa ou mal dormida, me dá a certeza de que ainda estou no jogo. Se estou enfermo me dá vontade de sair da cama, ir para a varanda ou para uma praça e deixar que o mormaço penetre em minha pele, aquecendo cada centímetro de meu corpo carente de energia.

Quando são e o trabalho me chama, fico louco para ganhar as ruas e ver os raios refletidos nas vidraças dos prédios, jogando claridade nas calçadas ainda dormentes. O calor do sol me enche de alegria e passo a prestar mais atenção nos pequenos detalhes que a vida coloca à minha disposição.

Se o dia não é de trabalho anseio por sair e fazê-lo durar mais do que as dez horas de claridade. Há tanta coisa para ver ou fazer, tantos lugares para visitar, tanta gente para curtir que meu corpo não demanda fadiga. Se houvesse mais sol nesses dias, mais eu faria. Quando digo isso não me refiro a algo grandioso, inédito ou incrível. Falo de pequenas coisas como andar no parque, fazer uma trilhar ou me sentar tranquilamente na beira da praia e deixar a maré brincar de molhar os meus pés até o astro sumir no horizonte.

O sol me dá a certeza de que posso fazer escolhas. Comer bem, beber muita água, rir de coisas insignificantes e dar muito menos valor aos aborrecimentos do dia a dia. A vida é feita de escolhas e quando as fazemos de forma sábia, tudo que nos cerca fica mais valioso. É certo que algumas vezes, é a vida que faz as escolhas para nós. Uma doença, um acidente, uma intempérie. Mas, mesmo quando isso acontece, ela nos dá a possibilidade de escolha. Podemos aceitar tudo como uma sentença de morte ou ir à luta, vivendo cada dia na normalidade de um dia ensolarado.
Quando vejo os raios do sol escapando entre as nuvens ou reinando soberano em um céu danado de azul, tenho a certeza de que tudo que acontece conosco tem uma única e exclusiva razão: devemos estar mais atentos às coisas simples da vida. Elas podem quebrar nossa rotina e nos trazer o prazer escondido entre suas insignificâncias.

quarta-feira, agosto 06, 2014

Caos no trânsito

Olhei pela janela do apartamento e vi o transito em frente ao prédio fluir como um rio, sem qualquer impedimento. Poucos veículos esperavam o sinal verde para avançarem despreocupados, levando seus ocupantes ao trabalho, colégio, consultas médicas, universidades e a outros compromissos. Voltei meus olhos para o céu para confirmar as previsões meteorológicas. As nuvens cobriam o azul celeste deixando o céu nublado. Corri para pegar o carro e sair de casa antes da chuva. Tudo o que não queria era estar no transito quando as torneiras do céu fossem abertas.
 
Saí da garagem fazendo preces para que a chuva demorasse mais um pouco para desabar sobre a cidade, mas foi em vão. Mal embiquei o carro na calçada, os primeiros pingos caíram sobre o para-brisa. O trajeto até o trabalho seria longo, mesmo estando a poucos quilômetros de casa. Dito e feito. Como por magia, a rua instantaneamente se encheu de carros. Aquele trânsito que fluía tranquilo agora se assemelhava a um empurra-empurra. O sinal vermelho parecia se alongar além do tempo previsto. Buzinas soavam insistentes, tentando abrir espaço nos cruzamentos sem sucesso. A chuva transformara o transito em caos. 

É certo que temos que reduzir a velocidade em pistas molhadas, redobrar a atenção com os carros que dividem as faixas de trânsito conosco, mas não entendo porque tudo para ao menor sinal de chuva. Passamos a andar abaixo dos trinta quilômetros como se todos fossem tartarugas. Com o trânsito parado, logo imaginamos algum acidente, mas ao passarmos por determinado ponto a partir do qual o tráfego flui, vemos que não há nenhuma razão para o engarrafamento. Chego a conclusão que alguns de nós, motoristas, sofremos algum tipo de pane a um mero sinal de água. Travamos e contribuímos para que o trânsito fique atravancado.

Dirigir na cidade é complicado, com chuva, então, fica impossível. Dito isso, só nos resta aprender a conviver com o caos no trânsito e torcer para que aqueles que temem dirigir nessas condições, nesses dias, fiquem em casa.

sexta-feira, julho 25, 2014

Para onde vão os guarda-chuvas?

Basta o tempo ficar nublado para que a lembrança dele se faça mais forte. Estando em casa, corremos a procurar o bem-dito por todos os cantos sem, contudo, encontrá-lo. Saímos às ruas nos desviando dos pingos d’água que caem justamente em nossas cabeças. Tentamos nos proteger com as mãos, jornais, livros, enfim, com qualquer coisa que tivermos nas mãos no momento em que somos surpreendidos pela chuva.
 
Outro dia tentei lembrar-me de quantos guarda-chuvas comprei até hoje. Estimei que havia comprado pelo menos dois por ano. Supondo que desde os quatorze anos eu os compro e que estou com cinquenta e três, cheguei ao impressionante número de setenta e oito. Fiquei boquiaberto. Eu, feliz proprietário de setenta e oito guarda-chuvas, sempre que chove estou sem nenhum e termino por adquirir mais um.

Já tive guarda-chuvas de todos os tipos e tamanhos. Pretos, cinzas, azuis, listrados, quadriculados, alegres e tristes. Grandes, médios, pequenos e reduzidos, uma tentativa de tê-lo sempre na mochila e nunca mais me molhar, mas que deixei em algum lugar que não lembro.

Quando converso com amigos e até mesmo estranhos, vejo que compartilho do mesmo problema e da mesma perplexidade. Todo mundo compra guarda-chuvas e os deixam em lugares desconhecidos. Parecem que eles são tragados por um buraco negro.

Muitas teorias são elaboradas para explicar o sumiço dos guarda-chuvas. Uma colega me disse que eles vêm dos anéis de Saturno e para lá retornam sempre que nos descuidamos. Outro me disse que eles são atraídos pelo Triangulo das Bermudas e lá penetram em um portal que os levam para outra dimensão. Eu acredito que existe um exercito de anõezinhos que os roubam e revendem para ambulantes que nos vendem para que sejam novamente roubados e revendidos a ambulantes que nos vendem e...

Lançamento do meu livro: O Olhar Oblíquo do Medo na Livraria da Travessa em Botafogo


quinta-feira, julho 24, 2014

Conversando a gente se entende

Não sei ao certo em que momento de minha vida fui informado de que a vida é finita. Nós nascemos e, com alguma sorte, crescemos, casamos, temos filhos, vêm os netos, a aposentadoria e a morte.

O fato de termos essa certeza não nos castra o desejo de viver. A maioria dos seres humanos passará o resto de suas vidas tentando ignorar o irremediável. A morte virá como virão os dias após as noites por séculos e séculos.
Essa corrida contra o tempo que empreendemos é, ao final de tudo, uma fuga impossível de um encontro que nos levará daqui para algum lugar além de nossa compreensão, a despeito das religiões nos levarem a crer que existe um lugar melhor do que esse aqui para os que se comportarem bem.
Alguns de nós, em algum ponto dessa linha da vida, nos deparamos com a expectativa de abreviação de nosso tempo aqui na terra. Pode ser uma enfermidade, um câncer, ou uma fatalidade, um assalto. O fato é que nesse momento somos envolvidos por um sentimento de medo. Sofremos pela perda que nossa ausência irá provocar nas vidas das pessoas a quem amamos.
Encarar esse momento é um desafio sem comparação. Quando somos nós os escolhidos para embarcar rumo ao desconhecido, fatalmente caímos em depressão, muitas das vezes contribuindo de forma decisiva para que o mau presságio se concretize. Quando ocorre com um parente ou um amigo, também ficamos reféns da situação, sem saber o que fazer ou como consolar o desafortunado.
Ano passado me descobri com uma necrose no fêmur. Parodiando a música, posso dizer que “meu mundo caiu”. Foi um soco na boca do estômago. Pensei que tinha chegado a minha hora. Com certeza, pensei, faltou alguém para fechar a cota do mês, São Pedro abriu o livro, fechou os olhos e seu dedo indicador parou em cima do meu nome. Fui o escolhido.
Passado o impacto inicial e após consultar outros especialistas, vi que meu caso tinha cura, mas eu iria passar um ano em inatividade. Foram oito meses entre a cama e a cadeira de rodas. A cada revisão da cirurgia uma grande expectativa de ter alta e voltar a andar, mas as radiografias indicavam que eu teria que ficar mais algum tempo sem colocar os pés no chão.
Sem perceber, fui entrando em depressão. Fui deixando de lado as coisas que estava fazendo, passei a bater ponto em frente a televisão e a comer compulsivamente. Vieram as dores de cabeça, pressão alta, dores no peito e um medo intenso do dia seguinte.
No momento mais angustiante desse processo, percebi que tinha que procurar ajuda profissional e o amparo dos amigos. De fato, fui a muitos médicos e eliminei passo a passo cada uma das minhas suspeitas. A dentista disse que não havia nada de errado nos meus dentes e que as dores de cabeça poderiam ser da coluna. A oftalmologista informou que meu grau continuava o mesmo. O cardiologista diagnosticou que eu não tinha pressão alta, portanto deveria parar de tomar remédio. O neurologista disse que não havia nada de errado com meu cérebro e que eu deveria ir a um psiquiatra. Fui, e também passei a fazer análise.
Em pouco tempo fui voltando ao normal. Tomei antidepressivos e calmantes, mas acredito que a ajuda maior que tive para sair do atoleiro em que me encontrava veio das conversas que tive com meus médicos, a analista e com os amigos.
Conversar é bom. Falar sobre tudo que te angustia e ouvir o outro é bem legal. Outra coisa que me fez muito bem foi criar novos objetivos, fazer novos planos, voltar a trabalhar. Sobretudo, o que fez a diferença em mim foi a decisão de resolver todas as pendências que havia acumulado através dos anos e que protelava as decisões em busca de um momento melhor. Não há. Quando temos um problema, é melhor resolvê-lo de uma vez por todas, evitando que fique acumulando poeira no fundo de nossa cabeça.
Então, se você está numa encruzilhada, se tens a expectativa de ir falar com Pedrão antes da hora, se é que alguém sabe qual é a hora de partir, ou se somente está sem vontade de viver, procure alguém para conversar. Tem o ditado que diz: “conversando a gente se entende”. É por aí. Converse, limpe o porão da sua cabeça. Coloque nela coisas novas: um amor, um filho, uma música, um livro, um trabalho. Qualquer coisa que possa vir a te dar prazer de voltar a viver. Se você fizer isso, não garanto que vás sobreviver, mas te asseguro que isso te fará muito bem.

domingo, julho 20, 2014

Fazer amigos é construir pontes para o infinito


Hoje me ocorreu de tentar identificar o momento em que um simples conhecido passa à condição de amigo. Tem pessoas que aparecem na nossa vida e vão ficando. De repente a gente passa a sentir vontade de fazer algumas coisas juntos: cinema, futebol, música, praia, novela, chope, caminhada, desabafo.
E vem o tempo e as distâncias, mesmo as mais insignificantes, ficam enormes, longes até mesmo de um simples telefonema. Nesses momentos pensamos que aquela amizade, que fora tão forte, não existe mais. Deixamos a mágoa tomar lugar da saudade. Se o amigo não me procura, também não o procuro mais. Deixamos morrer a cumplicidade, o querer bem, a certeza gostosa de se saber querido e a consciência do quanto aquela pessoa nos faz falta, mesmo quando queremos apenas o siléncio.
A falta que o outro nos faz se reflete na falta que fazemos a nós mesmos. Quando não nos permitimos cultivar uma amizade, envelhecemos sem guardar lembranças. De nada nos valerá os bons momentos se não pudermos compartilha-los com alguém somente com o interesse de torná-los eternos.
Penso que fazer amigos é construir pontes para o infinito. Nunca saberemos aonde uma boa amizade nos levará.

sexta-feira, julho 18, 2014

João Ubaldo Ribeiro, um brasileiro de Itaparica

Aos domingos, sempre que eu comprava um exemplar de “O Globo”, meu primeiro olhar corria para o caderno aonde encontraria o artigo de João Ubaldo Ribeiro. Me deliciava com as estórias que ele narrava contando suas estadias na Ilha de Itaparica e seus personagens memoráveis, reais ou imaginários.
 
As suas aventuras pela orla carioca, um café, um diálogo com o jornaleiro, um chope com os amigos, tudo era contado com extrema perícia pela riquíssima prova do grande escritor. Vencedor de grandes prêmios que honraram suas qualidades como contador de estória, talvez não soubesse que conquistara o maior de todos: o coração dos brasileiros que insistem em ter acesso a uma boa literatura.
Critico contundente de pessoas públicas que desempenharam suas funções não tão republicanamente como deveria ser, me parecia um inveterado esperançoso de dias melhores. Seus textos são obras-primas que poucos terão a oportunidade de igualar, nunca ultrapassar. Seus leitores sentirão a enorme ausência da sua voz rouca a denunciar as coisas que o incomodavam, mas terão como consolo os seus textos que, muitas vezes, soaram como chibatadas no lombo dos oportunistas e mentirosos. Talvez os corruptos pensem que agora terão descanso, uma vez que sua voz se calou, mas enganam-se. As palavras escritas por João Ubaldo ficaram eternizadas nos olhos dos leitores que as repetirão à exaustão por todo o sempre. Viva o povo brasileiro! Viva João Ubaldo Ribeiro, um brasileiro de Itaparica.